"À lareira"
Alfredo Cabeleira
Esta obra de Alfredo Cabeleira, do conceituado pintor de
Chaves (flaviense) destaca-se pela sua capacidade de transpor para a tela a
alma e as tradições da região transmontana.
A pintura "À lareira" é um exemplo magistral do
seu estilo, marcado por uma textura rica e uma profunda carga emocional.
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A obra apresenta uma cena típica do quotidiano rural e
doméstico de Trás-os-Montes.
O foco central é a lareira de chão, o coração da casa
transmontana, onde o fogo arde vivamente ao fundo, lançando labaredas em tons
de laranja, amarelo e carmesim que iluminam toda a composição.
No primeiro plano e plano médio, destacam-se os elementos
fundamentais da gastronomia e do conforto regional:
Os Potes de Ferro: Dois potes tradicionais de
três pés (trempes), negros e robustos, repousam sobre as brasas, sugerindo o
cozinhado lento de caldos ou guisados.
A Grelha: À esquerda, uma grelha de ferro
sustenta várias alheiras ou chouriços que estão a ser assados, com o brilho da
gordura e o calor do fogo quase percetíveis ao olhar.
O Ambiente: O chão está coberto de cinzas e
brasas dispersas, enquanto ao fundo se vislumbram as pedras de granito da
parede, típicas das construções de Chaves e arredores.
A Técnica: A pintura utiliza a técnica de
impasto, com pinceladas ou espátulas bem marcadas que conferem uma textura
rugosa e tridimensional à obra, tornando-a quase táctil.
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Análise Artística e Cultural
A Estética do Calor e da Luz
Alfredo Cabeleira utiliza um jogo de luz e sombra
(chiaroscuro) para focar a atenção no centro da lareira.
A luz não vem de uma fonte externa, mas emana do próprio
fogo, criando uma atmosfera acolhedora e íntima.
As cores quentes dominam a paleta, contrastando com os tons
terrosos e acinzentados das cinzas e das pedras, o que acentua a sensação
térmica de conforto contra o frio exterior do inverno flaviense.
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O Valor da Identidade Transmontana
A pintura é um manifesto de identidade cultural.
Para um habitante de Chaves, a lareira não é apenas um local
de confeção de alimentos; é um espaço de reunião, de partilha de histórias e de
sobrevivência.
Ao retratar os potes de ferro e os enchidos, Cabeleira
imortaliza rituais que definem a região, elevando o quotidiano ao estatuto de
arte.
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A Textura como Emoção
O uso generoso da tinta (impasto) não é meramente estético;
ele transmite a brutosidade e a força dos elementos retratados — o ferro
pesado, o granito frio e o fogo indomável.
A textura confere à obra uma energia vibrante, como se a
cena estivesse em constante movimento e transformação pela ação do calor.
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"Nesta obra, Alfredo Cabeleira não pinta apenas uma
cena; ele pinta o cheiro do fumo, o som do estalar da lenha e o sabor da
tradição flaviense."
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Texto: ©MárioSilva
Pintura: Alfredo
Cabeleira
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