domingo, 15 de fevereiro de 2026

“Campanário da Sé Velha – Coimbra”, 1933 - Mário Augusto (1895-1941)

“Campanário da Sé Velha – Coimbra”, 1933

Mário Augusto (1895-1941)


Esta obra de Mário Augusto, datada de 1933, é um testemunho vibrante do modernismo português com raízes naturalistas, captando a alma monumental de Coimbra.

Mário Augusto, embora menos mediático que alguns dos seus contemporâneos, foi uma figura central na vida artística de Coimbra, e esta pintura exemplifica a sua mestria em converter pedra em emoção.

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A Fortaleza da Fé

A pintura foca-se na estrutura imponente da Sé Velha de Coimbra, um dos edifícios românicos mais importantes de Portugal.

Composição: A obra é dominada pela verticalidade e solidez da catedral.

No primeiro plano, uma superfície diagonal (possivelmente um murete ou escadaria) conduz o olhar para cima, em direção ao corpo principal do edifício.

Elementos Arquitetónicos: Vemos as características ameias (os dentes no topo das muralhas) que dão à Sé o seu aspeto de igreja-fortaleza.

O campanário e a cúpula erguem-se contra um céu denso, enquanto as janelas de arco pleno reforçam a austeridade românica.

Cromatismo: A paleta é dominada por tons quentes de ocre, terra de siena e terracota, que sugerem a cor da pedra calcária ao fim do dia.

Estes tons contrastam dramaticamente com o céu num azul-esverdeado profundo (quase turquesa escuro), conferindo à cena uma atmosfera algo melancólica e introspetiva.

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Técnica e Estética

A Textura e a Pincelada: Mário Augusto utiliza uma técnica de impasto visível.

A tinta é aplicada de forma generosa, por vezes quase esculpida na tela.

Esta textura rugosa não é acidental; ela mimetiza a própria pele do monumento, a pedra gasta pelo tempo e as irregularidades da construção medieval.

A Luz e o Contraste: A iluminação é lateral e dramática.

As sombras profundas nos arcos e atrás dos volumes arquitetónicos conferem tridimensionalidade à obra.

Não é uma luz solar direta e brilhante, mas sim uma luz filtrada, típica de um final de tarde em Coimbra, que acentua o peso histórico do edifício.

Modernismo de Província (no bom sentido): Ao contrário do modernismo geométrico e abstrato de Lisboa ou Paris, o modernismo de Mário Augusto em Coimbra é mais telúrico.

Ele simplifica as formas — notem-se as janelas e as linhas da cúpula — mas mantém uma ligação umbilical à realidade física e ao espírito do lugar (genius loci).

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Contexto: Coimbra em 1933

Em 1933, Portugal vivia o início do Estado Novo, e a valorização do património nacional estava na ordem do dia.

No entanto, Mário Augusto evita o postal turístico "limpinho".

A sua Sé Velha é pesada, vivida e quase orgânica.

Como artista que viveu e morreu em Coimbra, ele não pinta apenas um monumento; pinta a sentinela silenciosa que observou gerações de estudantes e fados de Coimbra.

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Curiosidade: Mário Augusto fazia parte de uma geração que frequentava o café "A Brasileira" de Coimbra, sendo um observador atento da luz da cidade, que ele aqui imortaliza com uma sobriedade quase sagrada.

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Texto: ©MárioSilva

Pintura: Mário Augusto

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