"Avestruzes Dançantes"
Paula Rego
Esta é uma das obras mais icónicas e poderosas de Paula
Rego, produzida num momento de plena maturidade artística.
Integrada numa série encomendada para celebrar o centenário
do cinema, a pintora escolheu como referência o filme Fantasia (1940), da
Disney, especificamente a sequência "Dança das Horas".
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A pintura (executada em pastel, o meio predileto de Rego
pela sua tateabilidade) apresenta três figuras femininas robustas, vestidas com
tutus de bailarina em tons de preto e rosa.
As Figuras: Ao contrário das bailarinas etéreas e
frágeis do imaginário clássico, estas mulheres possuem corpos sólidos,
musculados e marcados pela passagem do tempo.
As suas expressões são graves, quase solenes, distantes do
sorriso performativo do ballet tradicional.
Poses e Composição: Uma figura mantém-se em pé, com
os braços erguidos em gestos que oscilam entre a dança e o desamparo.
Outra reclina-se pesadamente sobre o que parece ser um
colchão ou sofá de couro, sugerindo exaustão.
O Cenário: O fundo é minimalista e teatral, em tons
de violeta e cinzento azulado, o que isola as figuras e acentua a sua
monumentalidade física.
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A Subversão do Ideal
Nesta obra, Paula Rego opera uma desconstrução irónica e
profunda de vários conceitos.
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A Ironia da Bailarina-Avestruz
No filme da Disney, as avestruzes tentam dançar com uma
graça impossível para a sua fisionomia.
Rego transpõe essa ideia para o corpo feminino.
Ela retira a doçura da animação e substitui-a pela
"realidade nua e crua".
As mulheres aqui não "fingem" leveza; elas assumem
o peso da sua existência.
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O Corpo como Resistência
As "Avestruzes" de Rego são figuras de
resistência.
O uso do pastel permite à artista criar texturas que parecem
pele real, com sombras que evidenciam a anatomia poderosa.
Elas ocupam o espaço de forma impositiva, desafiando o olhar
que espera encontrar a beleza delicada associada ao tutu rosa.
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O Feminino e a Idade
A obra é um tributo à maturidade.
Há uma dignidade monumental nestas mulheres que, apesar de
trajarem roupas associadas à infância ou à juventude idealizada, mantêm uma
postura de autoridade e autoconsciência.
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“A arte de Paula Rego não procura o belo, mas sim o
verdadeiro. Nestas bailarinas, o ‘ridículo’ da avestruz transforma-se na força
indomável de mulheres que se recusam a ser invisíveis.”
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Esta série foi um marco tão importante que consolidou Paula
Rego como uma das maiores artistas figurativas do mundo, capaz de transformar
contos de fadas e filmes infantis em psicodramas complexos.
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Texto: ©MárioSilva
Pintura: Paula Rego
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