segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

"Avestruzes Dançantes" - Paula Rego

 

"Avestruzes Dançantes"

Paula Rego


Esta é uma das obras mais icónicas e poderosas de Paula Rego, produzida num momento de plena maturidade artística.

Integrada numa série encomendada para celebrar o centenário do cinema, a pintora escolheu como referência o filme Fantasia (1940), da Disney, especificamente a sequência "Dança das Horas".

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A pintura (executada em pastel, o meio predileto de Rego pela sua tateabilidade) apresenta três figuras femininas robustas, vestidas com tutus de bailarina em tons de preto e rosa.

As Figuras: Ao contrário das bailarinas etéreas e frágeis do imaginário clássico, estas mulheres possuem corpos sólidos, musculados e marcados pela passagem do tempo.

As suas expressões são graves, quase solenes, distantes do sorriso performativo do ballet tradicional.

Poses e Composição: Uma figura mantém-se em pé, com os braços erguidos em gestos que oscilam entre a dança e o desamparo.

Outra reclina-se pesadamente sobre o que parece ser um colchão ou sofá de couro, sugerindo exaustão.

O Cenário: O fundo é minimalista e teatral, em tons de violeta e cinzento azulado, o que isola as figuras e acentua a sua monumentalidade física.

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A Subversão do Ideal

Nesta obra, Paula Rego opera uma desconstrução irónica e profunda de vários conceitos.

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A Ironia da Bailarina-Avestruz

No filme da Disney, as avestruzes tentam dançar com uma graça impossível para a sua fisionomia.

Rego transpõe essa ideia para o corpo feminino.

Ela retira a doçura da animação e substitui-a pela "realidade nua e crua".

As mulheres aqui não "fingem" leveza; elas assumem o peso da sua existência.

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O Corpo como Resistência

As "Avestruzes" de Rego são figuras de resistência.

O uso do pastel permite à artista criar texturas que parecem pele real, com sombras que evidenciam a anatomia poderosa.

Elas ocupam o espaço de forma impositiva, desafiando o olhar que espera encontrar a beleza delicada associada ao tutu rosa.

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O Feminino e a Idade

A obra é um tributo à maturidade.

Há uma dignidade monumental nestas mulheres que, apesar de trajarem roupas associadas à infância ou à juventude idealizada, mantêm uma postura de autoridade e autoconsciência.

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“A arte de Paula Rego não procura o belo, mas sim o verdadeiro. Nestas bailarinas, o ‘ridículo’ da avestruz transforma-se na força indomável de mulheres que se recusam a ser invisíveis.”

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Esta série foi um marco tão importante que consolidou Paula Rego como uma das maiores artistas figurativas do mundo, capaz de transformar contos de fadas e filmes infantis em psicodramas complexos.

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Texto: ©MárioSilva

Pintura: Paula Rego

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