“Campanário da Sé Velha – Coimbra”, 1933
Mário Augusto (1895-1941)
Esta obra de Mário Augusto, datada de 1933, é um testemunho
vibrante do modernismo português com raízes naturalistas, captando a alma
monumental de Coimbra.
Mário Augusto, embora menos mediático que alguns dos seus
contemporâneos, foi uma figura central na vida artística de Coimbra, e esta
pintura exemplifica a sua mestria em converter pedra em emoção.
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A Fortaleza da Fé
A pintura foca-se na estrutura imponente da Sé Velha de
Coimbra, um dos edifícios românicos mais importantes de Portugal.
Composição: A obra é dominada pela verticalidade e
solidez da catedral.
No primeiro plano, uma superfície diagonal (possivelmente um
murete ou escadaria) conduz o olhar para cima, em direção ao corpo principal do
edifício.
Elementos Arquitetónicos: Vemos as características
ameias (os dentes no topo das muralhas) que dão à Sé o seu aspeto de
igreja-fortaleza.
O campanário e a cúpula erguem-se contra um céu denso,
enquanto as janelas de arco pleno reforçam a austeridade românica.
Cromatismo: A paleta é dominada por tons quentes de
ocre, terra de siena e terracota, que sugerem a cor da pedra calcária ao fim do
dia.
Estes tons contrastam dramaticamente com o céu num
azul-esverdeado profundo (quase turquesa escuro), conferindo à cena uma
atmosfera algo melancólica e introspetiva.
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Técnica e Estética
A Textura e a Pincelada: Mário Augusto utiliza uma
técnica de impasto visível.
A tinta é aplicada de forma generosa, por vezes quase
esculpida na tela.
Esta textura rugosa não é acidental; ela mimetiza a própria
pele do monumento, a pedra gasta pelo tempo e as irregularidades da construção
medieval.
A Luz e o Contraste: A iluminação é lateral e
dramática.
As sombras profundas nos arcos e atrás dos volumes
arquitetónicos conferem tridimensionalidade à obra.
Não é uma luz solar direta e brilhante, mas sim uma luz
filtrada, típica de um final de tarde em Coimbra, que acentua o peso histórico
do edifício.
Modernismo de Província (no bom sentido): Ao
contrário do modernismo geométrico e abstrato de Lisboa ou Paris, o modernismo
de Mário Augusto em Coimbra é mais telúrico.
Ele simplifica as formas — notem-se as janelas e as linhas
da cúpula — mas mantém uma ligação umbilical à realidade física e ao espírito
do lugar (genius loci).
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Contexto: Coimbra em 1933
Em 1933, Portugal vivia o início do Estado Novo, e a
valorização do património nacional estava na ordem do dia.
No entanto, Mário Augusto evita o postal turístico
"limpinho".
A sua Sé Velha é pesada, vivida e quase orgânica.
Como artista que viveu e morreu em Coimbra, ele não pinta
apenas um monumento; pinta a sentinela silenciosa que observou gerações de
estudantes e fados de Coimbra.
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Curiosidade: Mário Augusto fazia parte de uma geração
que frequentava o café "A Brasileira" de Coimbra, sendo um observador
atento da luz da cidade, que ele aqui imortaliza com uma sobriedade quase
sagrada.
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Texto: ©MárioSilva
Pintura: Mário
Augusto
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