sexta-feira, 19 de junho de 2026

"Anjos negros num interior arquitetónico" - Carneiro Rodrigues



"Anjos negros num interior arquitetónico"


Carneiro Rodrigues



A obra "Anjos negros num interior arquitetónico", da autoria do pintor flaviense Carneiro Rodrigues, apresenta-se como uma composição etérea e fragmentada, sugerindo a utilização de uma técnica seca, como o pastel ou o lápis de cor sobre papel.

Nela, a leveza cromática do cenário contrasta intensamente com o peso simbólico e visual das figuras retratadas.

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A Arquitetura: O cenário domina a totalidade da composição, delineando o interior de um espaço amplo, possivelmente um templo ou uma catedral gótica.

Destacam-se os altos pilares e as abóbadas que se cruzam no topo, convergindo para uma forma oval ou pequeno óculo central.

As linhas estruturais dos arcos são sublinhadas por faixas de cores vivas e sólidas, nomeadamente azul, vermelho, laranja e amarelo.

A Paleta de Cores: O fundo, o chão e as aberturas arquitetónicas são preenchidos com manchas suaves, texturadas e difusas em tons pastel.

Dominam os amarelos luminosos, os lilases, os púrpuras e os azuis claros, criando uma atmosfera imaterial e onírica.

Os Anjos Negros: Em rotura dramática com a luminosidade do espaço, surgem figuras escuras e esfumadas na metade inferior da obra, executadas com traços expressivos e caóticos, à semelhança da aplicação de carvão.

Estas entidades não possuem traços faciais definidos.

Uma figura ergue-se junto a um pilar do lado direito, com um braço elevado; outra encontra-se mais ao centro, também com os braços erguidos; e uma terceira forma, mais pequena, parece levitar ligeiramente acima desta última, em direção ao topo.

No canto inferior esquerdo, vislumbram-se as inscrições do autor.

 

Análise Artística e Interpretação

A Desconstrução do Espaço: Carneiro Rodrigues não procura uma representação realista ou uma perspetiva matemática rigorosa.

O chão e as paredes são fragmentados por linhas diagonais e blocos cromáticos que quebram a rigidez do espaço, denotando uma forte influência do abstracionismo geométrico e do cubismo.

O interior arquitetónico funciona não como um lugar físico, mas como uma dimensão psicológica ou espiritual.

O Contraste Simbólico: A força da pintura reside na oposição entre o sagrado imaterial e a densidade das figuras.

Enquanto as abóbadas são banhadas por uma luz divinal e fragmentada em cores vibrantes, os "anjos" são reduzidos a sombras.

Esta subversão da iconografia clássica — onde os anjos costumam ser seres imaculados e luminosos — confere um tom de mistério, inquietação ou melancolia à obra.

Movimento e Tensão Espiritual: A postura orgânica e instável dos anjos negros contrasta vivamente com a verticalidade mais racional dos pilares.

Os braços erguidos e a sugestão de levitação indicam um forte desejo de ascensão ou de redenção.

Parecem entidades presas à sua própria escuridão, que procuram desesperadamente alcançar o vórtice de luz e cor no topo do templo sagrado.

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Texto: ©MárioSilva

Pintura: Carneiro Rodrigues

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